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Estarei postando, semanalmente, no site Old Religion, poemas de minha autoria e também de visitantes do site.
Pra conferir;
Ana deita-se nua na cama. Os olhos verdes e repuxados brilham em sintonia com a lâmpada do abajur em cima do criado mudo ao seu lado, enquanto que os cabelos negros cobrem-lhe atrevidamente os pequenos seios. As mãos da mulher passeiam por sobre seu corpo, acariciam maliciosas os pelos pubianos, tão negros quanto a própria noite que se desenrola por trás destas paredes. A boca parece acompanhar em passo musical os entrelaces de desejo emanado de cada poro do corpo feminino em delírio.
Em pé, igualmente nu, defronte para Ana, Gabriel, ainda tonto de prazer demonstra sua excitação, alisando sua fonte de luxúria, evidenciando sua fome e ardor. O corpo másculo estremece junto ao de Ana enquanto encaminha-se para o leito em brasa. Deita-se por sobre a mulher, a qual em meio a um devaneio erótico desmorona, entregando-se por completo. Lábios se tocam ardentes, em meio a beijos fogosos, mãos se desentendem num ritmo frenético de carícias, e Gabriel, finalmente, abre caminho entre as pernas de Ana.
Os órgãos aquecidos pelo momento se encaixam perfeitamente e num instante se desligam do restante do corpo para deixar clara a soberania do ato. Movimentos ainda mais intensos se desenrolam, dançando ao som dos gemidos e palavras desconexas. E ainda, num ultimo suspiro, numa ultima golfada de prazer, os dois se contorcem, enquanto seus corpos exaustos se desintegram por sobre os lençóis desgrenhados. Um último gemido, uma ultima palavra, uma ultima respiração. Num instante são apenas um, Ana e Gabriel, na cama, no leito do prazer, naquela noite de inverno.
O dia amanhece como o deveria ser. Ana ainda está deitada na cama. Roupas espalhadas pelo quarto são a prova da noite bem aproveitada. No teto, o ventilador parado afronta a mulher de olhos vidrados no objeto. O corpo tenro e jovial procura ao lado um outro ao qual possa se abraçar. Não há nada além do espaço vazio e solitário.
Fecha os olhos, abraça um travesseiro entre as pernas e deixa-se vagar, incrédula e satisfeita, no mundo dos sonhos – devassos.
Alexandre Cesar Martins
Mistério noturno
O homem acorda assustado. A roupa encharcada de suor deixa claro o mal estar. O relógio marca três da madrugada e o silêncio é absoluto. Senta-se na beirada da cama, olhar pesado, leva as mãos ao rosto e logo levanta. A janela está aberta, nem uma leve brisa entra no quarto, apenas a luz de um poste ilumina o recinto.
Do quarto para cozinha. Marcelo enche o copo com água, virando-o em seguida num só gole. Senta-se e deixa-se apoiar pela mesa de mármore. A pedra gelada não o agrada, mas a vontade de ir até o quarto novamente é fraca perto do sono momentâneo. Dorme.
Papéis sobre a mesa do escritório, computador ligado e em ação, gravata afrouxada, camisa com botões abertos. O ventilador de teto gira vagarosamente para não espalhar a papelada, mas o calor não consegue sanar. E ali está Marcelo, em pleno horário de almoço. A hora passa voando enquanto o cansaço toma conta do homem. O telefone toca como que para atrapalhar. A voz feminina quebra a aflição. Conversam muito e desligam. Hora de voltar aos afazeres.
Acorda. Trabalhar durante o sonho não lhe agrada nem um pouco, o suor escorre-lhe pelo corpo – “Calor infernal”. Acha melhor tomar um banho e se desfazer da agoniante sensação de realidade causada por um sonho ruim.
A água fria proporciona a Marcelo o primeiro alívio da noite. Não precisa de caprichos, apenas deixa a água escorrer por seu corpo. Por minutos ali permanece até se dar conta de que já é hora de sair. Sem roupas segue para o quarto, não quer se vestir, apenas jogar-se na cama e descansar, mas não dormir, chega de sonhos por hora. No entanto, dorme.
Cama. Marcelo deitado ao lado de uma bela mulher, ambos dormem, sem roupa qualquer e abraçados. Um celular toca, o casal se movimenta, mas não atendem, nem mesmo acordam. Insistente o aparelho volta a gritar – Ela atende.
Depois de poucas palavras ao telefone a mulher veste-se, agitada. Procura desesperadamente cada peça de roupa, as quais estão espalhadas pelo quarto. Marcelo acorda. Não dá ela explicações e voa quarto a fora. Marcelo ouve gritos no corredor e estrondo de um corpo ao chão. Sem cerimônias um homem entra no quarto e inicia uma briga com Marcelo.
Malditos sonhos - pensa o homem. Tudo totalmente sem sentido. Devaneios de uma mente cansada e perturbada. Não quer mais levantar, não quer ir a cozinha nem tomar banho, apenas dormir e não sonhar. Enfrentar a noite de olhos fechados e satisfeitos. Mente paralisada e subconsciente silenciado. Ouve barulhos no andar inferior.
Veste-se e corre para baixo – Nada. Ouve passos, mas não vê ninguém. Gargalhadas e falatório, movimentação invisível. Tenta abrir a porta da casa, mas não consegue, está emperrada. As janelas também em mesma situação, e as gargalhadas continuam.
Como que sugado por uma força irresistível, Marcelo se vê novamente brigando com o homem desconhecido. Socos e chutes ao som dos gritos da mulher desesperada. O estranho saca uma arma. Os olhares dos homens se encontram, o mundo cala-se para Marcelo enquanto o segundo parece se tornar horas. Em pouco tempo a luta termina. Sangue, ainda mais silêncio e o sono tentador, as batidas da morte à porta.
Algumas pessoas sobem as escadas com malas nas mãos, rindo e entretidas com a nova morada. Marcelo senta-se no sofá, não é visto e menos ainda sentido, porém uma dúvida o atormenta - ele é o Marcelo que aparentemente está acordado ou o Marcelo que supostamente está sonhando...
E quando o sonho deixa de ser sonho? E quando a vida já não é mais vida? Sobra apenas a morte. A descoberta desta é fria, dura e cruel e vem enevoada em sonhos, mas é real e se faz real, apenas demora a ser entendida.