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Mistério noturno
O homem acorda assustado. A roupa encharcada de suor deixa claro o mal estar. O relógio marca três da madrugada e o silêncio é absoluto. Senta-se na beirada da cama, olhar pesado, leva as mãos ao rosto e logo levanta. A janela está aberta, nem uma leve brisa entra no quarto, apenas a luz de um poste ilumina o recinto.
Do quarto para cozinha. Marcelo enche o copo com água, virando-o em seguida num só gole. Senta-se e deixa-se apoiar pela mesa de mármore. A pedra gelada não o agrada, mas a vontade de ir até o quarto novamente é fraca perto do sono momentâneo. Dorme.
Papéis sobre a mesa do escritório, computador ligado e em ação, gravata afrouxada, camisa com botões abertos. O ventilador de teto gira vagarosamente para não espalhar a papelada, mas o calor não consegue sanar. E ali está Marcelo, em pleno horário de almoço. A hora passa voando enquanto o cansaço toma conta do homem. O telefone toca como que para atrapalhar. A voz feminina quebra a aflição. Conversam muito e desligam. Hora de voltar aos afazeres.
Acorda. Trabalhar durante o sonho não lhe agrada nem um pouco, o suor escorre-lhe pelo corpo – “Calor infernal”. Acha melhor tomar um banho e se desfazer da agoniante sensação de realidade causada por um sonho ruim.
A água fria proporciona a Marcelo o primeiro alívio da noite. Não precisa de caprichos, apenas deixa a água escorrer por seu corpo. Por minutos ali permanece até se dar conta de que já é hora de sair. Sem roupas segue para o quarto, não quer se vestir, apenas jogar-se na cama e descansar, mas não dormir, chega de sonhos por hora. No entanto, dorme.
Cama. Marcelo deitado ao lado de uma bela mulher, ambos dormem, sem roupa qualquer e abraçados. Um celular toca, o casal se movimenta, mas não atendem, nem mesmo acordam. Insistente o aparelho volta a gritar – Ela atende.
Depois de poucas palavras ao telefone a mulher veste-se, agitada. Procura desesperadamente cada peça de roupa, as quais estão espalhadas pelo quarto. Marcelo acorda. Não dá ela explicações e voa quarto a fora. Marcelo ouve gritos no corredor e estrondo de um corpo ao chão. Sem cerimônias um homem entra no quarto e inicia uma briga com Marcelo.
Malditos sonhos - pensa o homem. Tudo totalmente sem sentido. Devaneios de uma mente cansada e perturbada. Não quer mais levantar, não quer ir a cozinha nem tomar banho, apenas dormir e não sonhar. Enfrentar a noite de olhos fechados e satisfeitos. Mente paralisada e subconsciente silenciado. Ouve barulhos no andar inferior.
Veste-se e corre para baixo – Nada. Ouve passos, mas não vê ninguém. Gargalhadas e falatório, movimentação invisível. Tenta abrir a porta da casa, mas não consegue, está emperrada. As janelas também em mesma situação, e as gargalhadas continuam.
Como que sugado por uma força irresistível, Marcelo se vê novamente brigando com o homem desconhecido. Socos e chutes ao som dos gritos da mulher desesperada. O estranho saca uma arma. Os olhares dos homens se encontram, o mundo cala-se para Marcelo enquanto o segundo parece se tornar horas. Em pouco tempo a luta termina. Sangue, ainda mais silêncio e o sono tentador, as batidas da morte à porta.
Algumas pessoas sobem as escadas com malas nas mãos, rindo e entretidas com a nova morada. Marcelo senta-se no sofá, não é visto e menos ainda sentido, porém uma dúvida o atormenta - ele é o Marcelo que aparentemente está acordado ou o Marcelo que supostamente está sonhando...
E quando o sonho deixa de ser sonho? E quando a vida já não é mais vida? Sobra apenas a morte. A descoberta desta é fria, dura e cruel e vem enevoada em sonhos, mas é real e se faz real, apenas demora a ser entendida.
Velho Pescador
O homem se esforça para ver além. Posta as mãos um pouco acima dos olhos para protegê-los do sol forte. Nada. Continua a vislumbrar apenas o mar, praticamente sem ondas. Há algo ali, é fato. Em meio à calmaria das águas há uma pequena porção de ondulações circulares evidenciando sua teoria. Sob a água, é claro, pensa com convicção. Outrora teria raciocinado mais um pouco, estava cansado.
Senta-se na beira do deque de madeira e lança linha ao mar. Pescar certamente levaria embora a sensação de companhia. “Que coisa”. Nada de peixes, nem fisgadas. Tudo muito parado, mesmo debaixo d’água. Retira a linha para trocar a isca, talvez fosse esse o motivo. Da minhoca para o pedaço de pão semimastigado. “Vai resolver”.
Cantarola, já que nada pesca, ao menos o som de sua voz quebraria aquele silêncio chato. Uma fisgada, a linha se movimenta. Uma segunda, uma terceira, mas nada de pegar o safado. Os dedos puxam incessantemente a linha para confundir a presa, mas nada resolve. “A minhoca se balançando teria feito melhor que o pão”.
Cansado, desiste. Que fique na água o peixe. Tão logo pensa nisso revê as ondulações, bem próximas do deque. Sente um calafrio, pensa em sair dali, mas não o faz. Fugir de ondinhas, não era coisa de homem. “Negócio é entender”.
Fecha os olhos e põem-se a imaginar: Vê na água, exatamente no meio do circulo ondulatório, um peixe. Fita o ser pequeno com olhos curiosos, sentindo o mesmo vindo do outro.
De um lado o homem. Além do hobbie, a fome. Mas não uma fome arrebatadora, quem sabe apenas a vontade de comer algo diferente. Ou mesmo de sentir-se o caçador, comer aquilo que em suas garras cai e que, com eficiência, é pego. “Fico com a segunda”. Sorri.
Irrita-se. Abre os olhos e nada mais de ondulações. “Estou ficando louco, ou velho”. Ri da própria frase, como se o peixe a recitasse. Mas alguns minutos bastam para dar-se conta de que há ainda algo por ali, algo de estranho. Esfrega os olhos, abre-os o máximo que pode e avalia a imensidão de água à sua frente.
Da água surge o mistério, mas não emergindo desta. Esteve o tempo todo ali. Aquela figura estranha parece ser feita da mais pura e cristalina água. Não consegue , o homem, definir exatamente a forma, esta muda a cada minuto. A coisa começa a crescer, expandir-se pela superfície do oceano. Uma onda se forma, enorme. Avança contra ele com rapidez, o engloba. Sente o gélido tocar do líquido, mas nem sequer move-se, a onda não o esmaga, não o fere. Está ali são e salvo.
Olha para as mãos, não estão mais enrugadas. Jovem, sente o sabor da juventude, levanta-se e num piscar de olhos se joga na água. Nada, nada muito até desaparecer no horizonte.
Uma mulher chega ao deque. Abaixa-se perante os artefatos de pesca do marido. Olha para o mar, não o vê. Olha em torno – nada. “Onde estará?”.